Entrevista: Eli Iwasa é referência empresarial e artística na música eletrônica brasileira

Atitude, paixão pela música e uma trajetória cheia de coragem para se reinventar para os tempos atuais. Assim pode se definir a DJ e empresária Eli Iwasa, uma grande referência feminina, que atua na cena eletrônica há mais de 20 anos.

Presente em importantes line ups como Rock In RioDGTLTime Warp, residente do Warung Beach Club, Eli é sócia do Club 88 e Caos – localizados em Campinas e que ajudaram a moldar a cena eletrônica do interior paulista. A modelo é parte do casting da Ford Models e vocalista no projeto paralelo Bleeping Sauce ao lado do produtor Marco A.S., mostrando a versatilidade e a variedade que Eli Iwasa é, bem como a figura que ela representa na atualidade: uma mulher incrível.

Com uma bagagem mercadológica e um trabalho muito bem consolidado como DJ, Eli Iwasa tornou-se um dos nomes obrigatórios para festivais e clubes do país, onde cativa sempre novos públicos com o seu jeito singular e uma baita presença de palco. Esta semana, tivemos a oportunidade de entrevistar essa grande mulher, que se tornou uma grande referência para novas DJs e produtoras e deu uma grande aula para nossa equipe. E de bônus: Eli fez a curadoria da nossa playlist no Spotify, sendo nossa convidada do WiR Invites do mês de março – mês do seu aniversário! Leia a seguir:

Essa semana tivemos o dia internacional da mulher. Pensando em um “flashback” de toda sua carreira, como se sente sendo uma das mulheres mais importantes do cenário eletrônico nacional com tanta bagagem e relevância musical e mercadológica?

Eli Iwasa: “Quando eu comecei eu nunca imaginei que eu fosse ocupar esse lugar assim no mercado e na cena, que meu trabalho pudesse ter essa relevância. Eu acho que eu fui muito modesta nos meus objetivos. Eu era uma menina que só queria se envolver, fazer uma festa e promover a música que eu gostava de alguma maneira e me envolver com algo que eu amava.
Essa semana quando fui citada várias vezes e em vários veículos, e ter esse tipo de reconhecimento, não só das pessoas que atuam no mercado, mas principalmente do público, é muito gratificante. Receber esse tipo de carinho e é muito especial!
Eu acho que é a coisa mais legal de tudo o que eu faço, é quando vêm pessoas que estão começando, principalmente meninas. Porque quando eu comecei, não tinham tantas mulheres que servissem de referência. E ouvir as pessoas falarem que de alguma maneira meu trabalho as inspirou ou influenciou ou motivou elas a buscarem um caminho na música também, acho que é a parte mais legal do trabalho e de ter uma carreira de tantos anos e chegar nesse momento em que, de alguma maneira, tudo que eu construí, o que eu fiz, inspirou e transformou a vida de outras pessoas. Acho que é a coisa mais gratificante de tudo. Todos os percalços, os obstáculos e todas as dificuldades, pensar: ‘puts, valeu a pena, porque cheguei até aqui!’, com esse respeito, esse reconhecimento, principalmente das pessoas”.

A vida de DJ é sempre muito corrida, pois envolve muitos detalhes, logísticas, etc. Apesar de toda essa “correria”, você é responsável por dois clubes incríveis em Campinas: Caos e Club 88. Como era sua rotina fora da pandemia com sua carreira artística, empresarial e até mesmo de modelo que ficou muito presente nesses últimos tempos? 

Eli Iwasa: “A grande questão é equilibrar todas essas funções da vida profissional com a vida pessoal, que não dá para ser deixada de lado. O mais importante mesmo é organização e aprender a dividir o tempo. Coisa que eu não faço muito bem, porque eu acabo me envolvendo com vários projetos e quero fazer tudo. E um grande desafio talvez seja achar tempo para estar com a minha família, com os meus amigos e ter minha vida pessoal que é super importante”.

“Eu tenho grande sorte de ter sócios que são grandes amigos e compartilham a minha vida pessoal e profissional, há muitos anos. Vai fazer 15 anos de Campinas, então é 15 anos de uma sociedade, que deu muito certo e que são pessoas com quem eu posso contar. E eles são excelentes no que eles fazem. Então, na época que eu viajava todos os finais de semana, no final das contas, as datas que eu estava efetivamente nos clubes, eram muito menores do que as que eu não estava. E isso só é possível, porque eu tenho um time incrível, que trabalha ao meu lado, e sócios que, principalmente, cuidam muito bem das operações e de todos os outros setores em que eu não atuo diretamente. E isso só é possível com o time de pessoas do qual você faz parte, ser muito consistente, muito sólido e mão na massa. Então, eu tenho uma relação de muita confiança não só com os sócios, mas com os meus colaboradores. Eu podia viajar  e assumir outros compromissos fora dos clubes, ficando tranquila que o trabalho estava sendo muito bem feito, muito bem realizado”.

“E só graças a isso, sabe? Sozinha eu nunca conseguiria. É impossível! Tem parte do meu trabalho que só depende de mim. Ser modelo também. O clube ainda é algo que tem ainda um bom time, eu não preciso estar efetivamente ali todos os finais de semana. É uma coisa que eu sentia muito. Eu amo viajar, eu amo tocar em todos os lugares Brasil afora, mundo afora, mais tinham noites no Caos principalmente, que eu ficava muito triste de não estar presente. Porque eu cuidava dos line ups, então eu sentia muito quando eu era um artista que eu gostava pra caramba, que eu tinha trabalhado meses ou há anos, para conseguir bookar e não estava ali para aproveitar esse momento. Mas faz parte, são escolhas que a gente tem que fazer e no final dá tudo certo. Eu não estava ali, mais tinham milhares de pessoas curtindo algo que também eu tinha feito e construído com o meu time”.

Falando sobre o Caos, como é feita a curadoria de atrações do clube? 

Eli Iwasa: “A boa curadoria de um clube, vai muito além de fazer um line up ou de bookar uma grande atração. Primeiro, ela tem que representar a visão e o propósito do que você faz. Então, o Caos sempre buscou trazer diversidade e representatividade para os DJs que a gente bookava e os line ups que criavámos, porque tem muito a ver com o trabalho do público, com o que a gente acredita. E não é só sobre DJs. Os performances, os VJs, então, envolve outros aspectos artísticos que compõem a noite. E tem muito sobre uma uma visão estratégica também. Um clube é também um negócio, que precisa ser viável. A gente nunca mirou somente no lucro, só que sempre teve um retorno financeiro e foi consequência do que a gente acredita ser um trabalho bem feito”.

“Mas a gente tem que ter essa preocupação estratégica, de achar a data certa, de fugir de uma concorrência, de casar isso com as turnês internacionais ou possíveis datas que os artistas que a gente quer trazer para o Brasil, porque tem muito sobre a disponibilidade dos artistas para virem para a América do Sul e conciliar com outras datas pelo Brasil, pelo continente. Então, são vários fatores na curadoria. Precisamos nos preocupar não só com a parte artística, mas na parte estratégica, que é achar a data certa e fazer com que tudo se encaixe dentro de um orçamento que é viável e interessante para o clube.
É conciliar todas essas pontas, para fazer uma boa curadoria, mas principalmente, é sobre fazer algo que represente a gente enquanto o clube e nossa visão sobre isso”.

E em um cenário pós-pandemia? Nós vimos que vocês adaptaram o Caos para poder receber público dentro do possível, mas o que você está pensando em um período de curto a longo prazo?

Eli Iwasa: “Olha, é muito difícil fazer qualquer planejamento no momento, as coisas estão muito incertas e eu estou aprendendo a trabalhar a curto prazo, porque as coisas mudam de uma semana para outra e a gente tem que tomar decisões, entre reabrir ou fechar novamente, e de uma maneira muito rápida. Tem a decisão poder flexibilizar e pode abrir? Aí vamos ver quem é que está disponível, quem a gente quer chamar, quais os projetos envolver e já começar a divulgar, sabe? É tudo muito rápido hoje. Eu acho que quando a gente tiver notícia de que uma aglomeração poderá acontecer, uma pista novamente poderá acontecer, que eu não acredito que vai ser nos próximos meses, a gente vai demorar um tempo ainda para poder fazer isso. Eu acredito muito que a gente ainda vai ter dificuldades grandes em relação a contratações internacionais. A gente vive um momento em que o dólar está super em alta. A gente vai ter muitas dificuldades em relação à logística de voos. Muitos países ainda vão manter suas fronteiras fechadas para brasileiros. Isso também dificulta viagens de as pessoas de lá para cá. Eu tinha falado isso lá no começo da pandemia e muita gente falou: ‘imagina, não não vai acontecer isso das fronteiras’. E já aconteceu isso. E eu acho que além dessas dificuldades práticas, eu acho que tem uma coisa que é muito importante a gente falar que é sobre valorizar as iniciativas daqui, os núcleos daqui, as praças daqui, os clubes daqui, os artistas daqui, por que a gente tá vivendo um ano completamente sem apoio do governo, no qual está havendo um desmonte do setor cultural no país. Eu nunca vivi isso em 20 anos de cena e lógico que, em um cenário de pandemia, que ninguém estava preparado, ficar totalmente à margem da sociedade e do mercado, é uma coisa que eu nunca pensei passar por isso, sabe? A gente está realmente tendo de se virar, do jeito que dá, pelos nossos próprios meios”.

“Então, este apoio do público e das pessoas e esse entendimento de que esse suporte é que a gente vai dar para as iniciativas locais, é fundamental para a nossa retomada enquanto setor. Então, tenho falado muito sobre isso, porque vai ser muito importante. Não é só sobre as dificuldades que a gente vai ter para comprar atrações internacionais, mas sobre apoiar essa iniciativa e esses artistas que realmente vão precisar dessa retomada, vai ser fundamental para todos nós para a gente recomeçar. Nesse momento a gente está focando muito em talentos locais e a estamos vivendo um momento na cena brasileira em que a gente tem uma qualidade de produção de entrega não só musical, mas de evento, que ela partilha ao mesmo nível de Europa e Ásia, sabe? Que é uma entrega muito grande. Então, vamos montar uma força e vamos valorizar. Vamos pensar com mais carinho. Talvez no começo eu tenha muitos line ups só com artistas nacionais que não devem para ninguém, que vendem ingresso tanto ou mais que os gringos, a gente está vivendo um momento que isso nunca aconteceu na cena, em que maiores tickets sellers do Brasil, são brasileiros. Principalmente na cena mais comercial, mas também no underground, os caras nacionais vendem muito bem e enchem clubes, festivais. Então, é para a gente pensar com carinho sobre isso”.

(Foto: Thiago Xavier / Time Warp Brasil)

Por ser artista e empresária, consegue enxergar e vivenciar ambos os lados da dificuldade da área de entretenimento devido ao COVID-19. Você ressaltou bastante do seu olhar empresarial na última resposta, mas como DJ, quais são os maiores obstáculos que vocês estão passando neste momento delicado?

Eli Iwasa: “A maior dificuldade é que estamos impedidos de trabalhar e estamos seguindo sem apoio. Eu acho que teve esse esforço gigantesco de rendição dos artistas e dos núcleos, que acabou reverberando isso para outros setores. O underground tem muita necessidade de se reinventar e de encontrar formas de sobreviver, e acabam inspirando e mostrando novas maneiras de fazer as coisas.
Foi assim com monetização das lives, foi assim com festa no zoom, isso tudo partiu da própria necessidade que a gente sentiu de encontrar formas de diversificar essa entrada de receita”.

“Eu acredito que esses Eli Iwasa: conteúdos digitais vão permanecer e continuam paralelamente mesmo quando voltarem os eventos presenciais. Mas realmente a gente está sofrendo muito com a falta de apoio e com essa dificuldade de se manter ativo dentro do que a gente faz.
Eu estou em uma posição privilegiada, mas eu sei que tem gente que está procurando emprego, que precisa de dinheiro para pagar aluguel, porque as pessoas acham que os DJs tem reserva, tem muita grana mas não é bem assim. Isso é uma parcela muito pequena, mas a maioria depende essencialmente dos cachês e das apresentações para cobrir os gastos básicos de sobrevivência”.

Você fará a nova campanha da Beck’s ao lado de artistas muito importantes. A campanha retrata um pouco justamente sobre o segmento em que você atua. Como surgiu esse convite e o que isso significa para você?

Eli Iwasa: “Olha eu tenho uma sinergia muito grande com a Beck’s. Na verdade, a gente estava se paquerando já faz um tempo. A Ambev tá nos meus clubes também, mas uma das coisas que eu acho legal, é que a Beck’s da maneira que ela pode, ela tá apoiando artistas e algumas iniciativas ao longo desse ano todo de pandemia. Eles entendem o seu papel nesse momento, para fortalecer pessoas e núcleos, para sair disso tudo junto, sabe? E quando a gente poder retomar os eventos, é muito importante as iniciativas que fazem um bom trabalho na cena vir com eles, porque é importante e a gente precisa sobreviver. E se a gente não tem apoio do governo, a gente conta com o apoio das marcas, que é onde é que tem um maior apoio substancial”.

“Eu acho muito legal que eles tenham tido esse pensamento nesse tempo e eu estou muito alinhada com os valores que eles promovem. Dentro do universo da cervejaria, a Beck’s é uma marca que promove a diversidade e a representatividade, a igualdade entre gêneros. Então, isso tudo é o que me levou a estar mais perto da marca nesse tempo. Eu fico muito feliz que eles tenham pensado em mim para essa campanha. Eles lançaram a campanha comigo e ainda mais porque eles conseguiram reunir um baita time que atua em diversas áreas. Tem muito a ver com o jeito que eu penso, que eu acredito, que eu vivo na minha vida. É uma honra fazer parte, porque são figuras da cena underground, da cena independente, que estão ali encabeçando uma campanha de uma marca gigantesca como a Beck’s. Então, é uma alegria muito grande, uma honra”. 

(Foto: Recreio Clubber / Caos Campinas)

Além da parceria com a Beck’s, você tem uma parceria com a Samsung, né?

Eli Iwasa: “A Samsung tem sido uma grande companheira minha há dois anos e a gente fez coisas muito legais. Ela foi a primeira a marcar gigantesca desse porte a investir em mim. Eu estava em outro momento na carreira, foi para Rock in Rio, para tudo, sabe? E a gente conseguiu construir uma relação muito forte. Eu acho que até mudou um pouco o pensamento da empresa em relação à música eletrônica, eles vêm trazendo outros artistas, eles que acabaram de fazer coisa com o Alok. Então, você vê o salto que a música eletrônica deu na empresa. É uma parceria que eu tenho muito orgulho, porque foi uma coisa que eles reconheceram esse potencial que eu tinha e a gente fez coisas muito legais ao longo desses dois anos. Fora que eles me acompanham nas gigs e em outros projetos, a Samsung é aquela parceria que eu sempre vou ter um carinho muito grande, porque ela teve um ponta pé muito importante e tenho certeza que chamou a atenção de outras marcas. Não só para o meu trabalho, mas para artistas que trabalham nesse segmento. Eu acho que quando uma marca como a Samsung convida uma artista da música eletrônica, da cena underground, para trabalhar junto, faz com que outras marcas também prestem atenção não só nos artistas que são gigantescos, mas que agregam valor às marcas de uma maneira que não é só em números mas em relação a valores que promove”. 

Você faria uma apresentação com o Seth Troxler para o Warung Day Festival, que infelizmente foi cancelado. Apesar de seguirem linhas “diferentes”, como surgiu a ideia desse B2B? E o que você estava preparando para se adaptar nesse set?

Eli Iwasa: “Existem alguns B2B que você monta pela afinidade entre os dois artistas, que é muito óbvia. E tem aquele B2B, que você monta por que é completamente inesperado. E eu acho que quando o pessoal do Warung pensou nisso, foi justamente nesse fator: mas o que vai dar?”.

“Quando recebi o convite, eu aceitei na hora, mas depois eu pensei: ‘o que eu vou fazer?’. Só que assim, eu e o Seth, ele tocou comigo na primeira vez que ele veio ao Brasil no Hot Hot. E a gente se conhece. Então, a gente meio que daquela escola mais antiga, a gente gosta das mesmas coisas e temos muitas referências parecidas. Eu estava super empolgada porque estava separando várias coisas desde o clássico uso do techno, house, muito Chicago, muito Detroit, porque eu sei que ele tem essa influência muito forte na vida dele. E também estava resgatando muita coisa daquela segunda onda do minimal, que o Seth também começou com essa galera no começo dos anos 2000. Eu estava resgatando várias dessas coisas, porque eu ia tocar no after do Warung e after permite esse tipo de set que não é só coisa atual mas você consegue ter uma amplitude de repertório muito maior”.

“Eu realmente estava preparando algo muito especial, e eu fiquei sentida quando eu percebi que não ia rolar. Espero que esse B2B role algum dia de novo, porque tenho certeza que vai ser muito legal. E o Seth gosta de música, ele ouve de tudo, então, eu estava levando até disco, soul, estava levando várias coisas diferentes que se rolasse ali, eu ia meter uns edit de disco e algumas coisas de groove para tocar com ele, mas não rolou. Espero que algum momento role”.

Você já dividiu palco em grandes festivais e eventos, com outros artistas internacionais que são muito importantes para o cenário underground, principalmente as mulheres. Existe algum artista no qual você adoraria dividir os decks?

Eli Iwasa: “Que pergunta difícil. Eu já dividi palco com tanta gente, né? Bom, eu já toquei com ela mas eu adoraria tocar agora, talvez fazer um B2B que a gente nunca fez, que é com a Miss Kittin, eu a conheço há muitos anos e ela também conhece muito de música. Acho que a gente também gosta muito de várias coisas parecidas. A gente sempre teve uma relação muito carinhosa e com muito respeito e eu acho que ia ser um B2B, ou se a gente dividisse a cabine num momento como esse ia ser muito legal.
Outra pessoa é um DJ que eu gosto muito, que eu nunca toquei com ele e acho que vai ser muito legal também que é o Dave Clark porque ele também toca techno, eletro e é f0da sim. Um amigo meu querido, que é incrível. Ele gosta do tipo de pós punk, de industrial, de edm, acho que seria bem interessante também”.

“Uma que adoraria tocar junto, seria a Nina Kraviz, acho que seria animal. Todas as pessoas que eu citei são muito versáteis, que eu sei que poderia fazer a gente poderia sair da casinha. Fazer B2B para tocar as mesmas coisas, eu não gostaria. É a mesma coisa com o Seth. Eu topei fazer o B2B, porque eu sabia que era para tocar coisas diferentes. E na verdade uma das coisas que eu percebi assim nesse ano que eu toquei muito em casa, é que eu quero poder tocar sets mais variados. Eu me divirto mais. Lógico que vai ter aqueles festivais grandes, como a Time Warp, porque lá tem que fazer set de techno de uma hora, uma hora e meia, mas eu pensei nessas três pessoas porque eu sei que vai dar para sair da casinha várias vezes, tocar coisas diferentes. Buscar desde as referências que imagino que acabem se cruzando, até as coisas novas”.

E quais foram os maiores desafios profissionais que você já passou?

Eli Iwasa: “Eu enquanto mulher, não que eu tenha experimentado isso claramente, porque as pessoas que ainda têm um nível de respeito muito grande comigo. Mas eu sei que enquanto mulher, sempre vou ser questionada sobre meu talento, a minha capacidade, o meu mérito. É sempre o fato de ser mulher, ser feminina ou ser bonita ou ter namorado com o fulano, isso sempre vem à frente. Esse foi o grande obstáculo, mas ao mesmo tempo foi o que me deu força. Sempre encaro isso como uma grande mola propulsora. Por exemplo, já teve de eu tocar depois de uma grande atração e alguma pessoa até próxima a mim, falar: ‘ah, será que você vai dar conta?’ e eu ia lá e quebrava, porque eu me agarrava a isso. Eu nunca abaixei a cabeça para essas coisas. Eu sempre usei isso como uma força para me motivar ainda mais”.

“Eu vivi isso algumas vezes ao longo dos 20 anos. Quando você é mulher no começo de carreira, muita gente te booka porque você é mulher. Mas para você se consolidar de verdade no mercado e ter uma carreira consistente ao longo de muitos anos, é bem desafiador. E por muitos anos, eu sempre fui a única mulher no line up. A gente lida com a falta de oportunidade e de visibilidade. Eu sou única mulher no line up, dai coloca a gente para abrir. A gente lida com uma diferença muito grande de oportunidades, a diferença de cachê. Eu demorei muitos anos pra começar realmente dividir o line up com muitas outras mulheres e nem hoje coisa é igual. A disparidade é muito grande, principalmente nos grandes clubes e festivais e a diferença de cachê também. Então, acho que a maior dificuldade que tive foi em relação a isso. Eu espero que com o tempo isso acabe mudando. Acho que já está mudando do jeito que o mercado percebe as mulheres, está mudando devagarinho, mas tá”.

O que a Bleeping Sauce significa para você? E como surgiu?

Eli Iwasa: “O Bleeping Sauce é o projeto que eu tenho com o Marco A.S. O Marco é um grande pioneiro, principalmente no formato de live performance. Ele era um dos caras do Influx, depois formou o Click Box, que foi um projeto que fez grandes turnês internacionais, era um projeto relevante dentro da Minus, que era o selo do Richie Hawtin. E aí quando o Marcão saiu da Click Box, ele queria fazer um projeto que tivesse a ver com o momento que ele estava vivendo e buscando algo mais musical. O Bleeping Sauce é um projeto que ele é essencialmente eletrônico, mas que não vislumbra apenas a pista. É um projeto que tem uma visão  artística e musical muito forte.
O projeto nasceu para ser uma expressão artística, muito mais do que para fazer música para a pista. É música dançante? É, mas ela não é feita para isso. E o Marcão me convidou para fazer os vocais do projeto porque ele viu que eu estava fazendo aula de canto, dai ele me chamou para gravar algumas coisas de cara e deu muito certo. Logo nas primeiras gravações a gente já lançou um EP por um selo francês chamado Meant. Depois veio um EP pela Warung, Som Livre, etc. A gente tem uma trajetória muito legal que não só me tirou de uma zona de conforto, é um projeto desafiador porque não é como eu tocando como DJ, que eu domino completamente e super confortável. Cantar me tira completamente da zona de conforto. É algo que me desafiou o tempo inteiro e tive que realmente mergulhar nas aulas de canto e aprender muita coisa. Principalmente quando eu fui para turnê ao vivo, que a gente caiu na estrada para 16 datas”.

“É um projeto que eu tenho que até um lugar muito especial na minha carreira, no meu coração, é algo que me permitiu lançar disco, lançar por uma gravadora gringa importante, me apresentar ao vivo Brasil afora. Nós lançamos dois clipes super legais dirigidos pelo Raul Machado, que dirigiu clipes do Sepultura, do Planet Hemp, Nação Zumbi. Só fez clipe para a banda muito treta. Então, Bleeping Sauce é uma grande realização. Aquela realização de um sonho que eu tinha quando era pequena, que era cantar e apresentar ao vivo. E ao mesmo tempo, que me permitiu me expressar artisticamente e musicalmente de uma forma bem completa. Acho que só veio para encorpar todo o meu trabalho. É algo que me realiza muito e onde eu consigo trazer todas as minhas referências musicais importantes, que é gótico, pós punk, industrial, edm, synth pop. Essas referências nem sempre aparecem nos meus sets porque às vezes eu tenho que fazer sets que são muito eficientes e tenho que fazer a pista bombar. Já no Bleeping Sauce, a gente não tem esse compromisso. A gente só precisa ser a gente mesmo e é um privilégio poder fazer isso”.

Para finalizar a nossa entrevista, quais são os próximos passos em sua carreira para este ano?

Eli Iwasa: “Quando eu percebi que os eventos não vão voltar tão cedo, eu comecei a me envolver com outros projetos que estavam em pausa e que sempre ficaram um pouco de lado, porque eu nunca tinha tempo para dar atenção devida para outros lados. Mas esse ano me permitiu a atuar em diversas frentes, diversificar meu trabalho, minhas áreas de atuação dentro do que eu faço que é música eletrônica”.

“Então, eu fiz um programa de entrevistas no ano retrasado, que chamava ‘Elas’. Eu conversei com várias mulheres profissionais da cena no Brasil. Esse lado de conteúdo digital e de modelo também ficou bem forte esse ano, mas para esse começo de 2021, eu tenho um grande projeto que já está finalizado. A gente está só negociando os detalhes para colocar no ar, que é um podcast chamado ‘Play’, em que eu conversei com pessoas, não só artistas, mas principalmente pessoas nos bastidores da cena musical. Então, tem desde o Tessuto, falando como começa uma festa, até a curadoria quando Monique Dardenne, com a Marta Carvalho da Casa Natura, os meninos do Salla 28 para falar sobre cenografia digital ou Picorelli, que faz provavelmente o soundsytem de todos os festivais importantes de Dekmantel, Time Warp, DGTL. São pessoas que realmente estão trabalhando ali nos bastidores para fazer as coisas acontecerem, mas que muitas pessoas nem sabem quem são e qualquer profundidade da contribuição deles para que as coisas aconteçam no Brasil.
A cena não é só sobre o artista, a cena é sobre uma rede de profissionais que botam as festas em pé. Então, eu quis trazer essas pessoas para a frente. Eles estão sempre nos bastidores e eu quis trazer o holofote sobre essas pessoas mostrando o trabalho delas. 
São dez episódios, assuntos variados e a gente já está com mais duas temporadas prontas, esperando o sinal verde para gente começar a gravar. Então, esse é o meu projeto, meio meu ‘filhinho’ para esse começo de 2021, que eu acredito que deve estar indo ao ar em breve. Nós convidamos o Tessuto, Cashu, Amanda Mussi, Renato Cohen,Monique dar Beni a Dardenne, Marta Carvalho, Junior da Salla 28, Guilherme Picorelli e a Trevosa que é performancer. Foi um time de convidados bem impressionante porque a gente conseguiu fazer uma coisa que acontece muito pouco, que é reunir pessoas de outros núcleos muito diferentes, mas no mesmo programa e conteúdo. Eu estou bem feliz com o resultado, as conversas foram ótimas, eu não vejo a hora de poder compartilhar”.

Agradecimento: Vinicius Martini.
Amanda Nakao

Adora entrevistar DJs e é viciada em batata frita - não pode ver batata em festival que já quer!