Meio de comunicação muito utilizado nos dias de hoje, o rádio surgiu no final do século XIX, quando o italiano Guglielmo Marconi realizou a primeira transmissão telegráfica da história. Desde então, o veículo se tornou uma fonte de informação e entretenimento rápida e acessível para a sociedade. A partir daí, começaram a aparecer as primeiras emissoras com o intuito de difundir arte e cultura para o mundo.
Foi nessa finalidade que quatro amigos nascidos em Ribeirão Preto (SP) deram vida à Rádio Vitrine, espaço voltado para produtores compartilharem suas músicas virtualmente. O tempo passou e o projeto que começou como uma página dedicada a lançamentos e tendências do universo da música eletrônica, cresceu, e hoje atua como uma label no interior do estado de São Paulo.
Vinicius Lopes, um dos fundadores do coletivo, conta que não havia um ambiente no qual o pessoal conseguisse curtir um som diferente na cidade, e percebendo essa brecha, decidiu resolver o problema. “Nascemos inicialmente para mostrar o tipo de som que nós gostávamos. Só depois rolou o desejo de fazer a festa, proposta que ganhou muita força com o passar dos anos”, comenta.
Além da lacuna observada pelos jovens, existem os desafios por trás da organização e manutenção dos eventos, como a dificuldade em atrair o público. Em Ribeirão Preto, por exemplo, município conhecido por abranger outros estilos musicais, não há muita aceitação das pessoas quanto à eletrônica. “A galera não costuma comprar a ideia aqui. Geralmente, não estão abertos a novas experiências”, salienta.
O que também trouxe desafios para o hub foi a falta de referências na região. O grupo é um dos primeiros a oferecer esse conceito estético e sonoro à cidade, firmando sua presença no interior. Mesmo com os obstáculos, a marca atualmente possui um sistema e equipe funcional, com a maioria dos processos acontecendo normalmente. Já foram realizadas, em média, 25 festas desde sua fundação.
Com seis anos de estrada, o projeto coleciona feitos importantes. Em um dos encontros realizados pela rádio, o produtor russo Lipelis esteve presente. O DJ conhecido pelo seu trabalho na house music, retornou ao Brasil algumas vezes e sempre fez questão de comparecer nos shows promovidos pela marca. Outro que passou pela Rádio Vitrine foi Jex Opolis, DJ canadense que fez uma tour pelo país em 2023.

Os idealizadores do projeto também fizeram uma edição exclusiva da festa em um estádio de futebol do município. Os frequentadores acompanharam o evento diretamente da arquibancada, transformando o local em uma arena improvisada. Cerca de 200 pessoas estiveram presentes.
Apesar do sucesso da iniciativa, há objetivos a serem cumpridos. Um deles é a vontade de organizar uma apresentação gratuita na cidade.“ Pretendemos promover um encontro da rádio em um espaço aberto, porém é algo que demanda bastante trabalho. Sempre tivemos esse desejo”, destaca Vinicius.
Ainda existe o sonho de participar da curadoria de um dos maiores festivais de rock do país, montando um ambiente reservado para os fãs que optem por ouvir outros gêneros musicais durante o evento. “Temos o interesse em criar uma área com um Sound System adequado aos padrões que um show desse nível exige”, explica Victor Mesquita, criador do coletivo.
Por trás das line-ups das festas desenvolvidas pela rádio, é preparada uma seleção minuciosa dos artistas que irão tocar no local, abrindo o leque para diversas vertentes da eletrônica. Os responsáveis pela criação da label party, dão a liberdade para o DJ comandar o som da maneira que quiser, proporcionando a diversidade e pluralidade ao público, pilares fundamentais da iniciativa. “Nós deixamos o produtor bem à vontade na pista. O nosso critério de avaliação passa principalmente pelo tipo de groove que apreciamos. Tudo rola de forma muito natural. A partir disso, se pauta o nosso projeto”, enfatiza Victor.

O grupo também preza pela proximidade entre o artista e o público, propiciando um espaço intimista para ambos os lados. Geralmente, os sets duram de duas a três horas. Para Enzo Vanni, integrante da Rádio Vitrine, as festas servem como um laboratório, sobretudo para testar novos sons e oferecer um clima único para os fãs.
“Conseguimos criar uma atmosfera muito bacana nos shows. Buscamos fortalecer o elo entre todas as pessoas envolvidas no evento, e o produtor também faz parte disso”.
Fundamentais na gestão e produção de músicas, as plataformas de áudio se tornaram peça-chave para produtores e representantes da cena. Em 2024, elas apresentaram crescimento de 22,5% e faturamento de 3,08 bilhões. Nesse contexto, o streaming passou a atuar como aliado do coletivo, em especial na divulgação de novas faixas e artistas. “Nós criamos um grupo em um aplicativo e começamos a convidar todos para participarem. Com isso, formamos uma comunidade e conseguimos impulsionar a cultura da eletrônica em Ribeirão Preto”, afirma Enzo.
Enquanto a cena underground se amplia, novas iniciativas vêm surgindo. A Rádio Vitrine é mais um exemplo de resiliência da música eletrônica para além dos grandes centros urbanos.
