Por muitos anos, a música eletrônica e o circo seguiram caminhos completamente diferentes. Enquanto os festivais e clubes consolidaram a cultura dos DJs, os espetáculos circenses mantinham trilhas sonoras tradicionais para acompanhar suas apresentações. Essa realidade começou a mudar com Bruno Lucas Peroni aka KASTA, DJ e produtor gaúcho que hoje atua no Mirage Circus, o maior circo da América Latina, tornando-se o único DJ circense em atuação permanente no hemisfério sul.
Natural de Porto Alegre (RS), KASTA iniciou sua carreira tocando Tech House em clubes regionais e festas privadas. A mudança aconteceu quando recebeu a oportunidade de integrar um projeto inédito dentro do Mirage Circus, onde a música eletrônica passou a fazer parte da estrutura artística do espetáculo.



Segundo o artista, o convite surgiu por meio de seu mentor, DJ Kampff, que havia sido descoberto pelos proprietários do circo durante uma apresentação em um clube de Porto Alegre.
“Ele recebeu o convite para ser o DJ do circo, mas não podia assumir a rotina itinerante. Depois de muito treinamento e confiança no meu trabalho, me apresentou ao Mirage Circus.”
Em março deste ano, KASTA assumiu oficialmente o posto e passou a atuar em um formato que, até então, praticamente não existia na América do Sul.
Um DJ que atua como maestro do espetáculo
Ao contrário de uma apresentação em clubes ou festivais, o trabalho de KASTA vai muito além da discotecagem. Durante o espetáculo, a música precisa acompanhar cada movimento dos artistas, intensificando emoções e ajudando a construir a narrativa de cada número.
“A principal diferença é que as pessoas não estão no circo para dançar. A música precisa transmitir exatamente a sensação que o espetáculo quer passar. No Globo da Morte, por exemplo, ela precisa ter a mesma intensidade das motos girando dentro da estrutura”, explica.
Além da seleção musical, diversos efeitos normalmente utilizados em pistas de dança ganharam uma nova função dentro do circo.
“Efeitos que normalmente usamos para destacar um build-up hoje acompanham o movimento de uma contorcionista ou de outros artistas durante a apresentação.”
Embora cada espetáculo seja planejado com ensaios e roteiros detalhados, o improviso também faz parte da rotina.
“Sempre buscamos a sincronia perfeita, mas imprevistos acontecem. Se uma moto para antes de um salto, preciso adaptar a música para que o público interprete aquele momento da maneira correta.”
Produzindo música eletrônica para o circo
Além das apresentações ao vivo, KASTA também participa do desenvolvimento de músicas originais criadas exclusivamente para os números do Mirage Circus.


O processo acontece em conjunto com a direção artística, equipe técnica e artistas, que trabalham para construir uma identidade sonora própria para cada atração.
“A música é produzida pensando tanto em quem vai ouvi-la quanto em quem vai executar a performance. Precisamos criar momentos de tensão, euforia, alívio, pausas para aplausos e descanso. É um processo que não tem manual. Estamos literalmente criando do zero.”
Hoje, toda a segunda parte do espetáculo é conduzida por KASTA utilizando música eletrônica produzida especialmente para o circo.
Uma nova vertente para a música eletrônica
Para KASTA, esse trabalho pode representar o nascimento de uma nova forma de produzir música eletrônica.
“O circo é conhecido como a Mãe das Artes e acredito que também pode se tornar o berço de uma nova vertente da música eletrônica mundial.”
Segundo o artista, a escolha pela música eletrônica acontece pela capacidade do gênero de transmitir emoções mesmo sem depender de letras ou refrões.
“A estrutura, os timbres, as batidas e o tempo conseguem criar sensações muito fortes. Da mesma forma que a lona do circo transporta o público para outro mundo, a música eletrônica também faz isso.”
A reação do público
A presença de um DJ comandando a trilha sonora ao vivo ainda surpreende boa parte do público.
“Geralmente as pessoas ficam impressionadas. Quando você para para pensar, realmente é algo muito diferente.”
Entre os momentos mais marcantes, KASTA destaca o encerramento do espetáculo.
“Antes da música eletrônica, muitas vezes precisávamos pedir para o público levantar e aplaudir. Hoje isso acontece naturalmente. Vejo pessoas arrepiadas e até chorando durante o final.”
Outro número lembrado pelo artista é o da “Gota”, apresentação de contorcionismo em tecido desenvolvida desde o início com música eletrônica original.
“A música conduz completamente a experiência. Ela faz o público admirar o artista e até aplaudir exatamente nos momentos em que isso acontece naturalmente.”
Os desafios de viver no circo
Além da adaptação artística, KASTA também precisou mudar completamente seu estilo de vida para acompanhar a rotina itinerante do Mirage Circus.
“Deixei minha família, meus amigos e minha cidade para viver esse sonho. Conhecemos pessoas diferentes, culturas novas e isso faz tudo valer a pena.”
Outro desafio foi conquistar a confiança de um ambiente tradicionalmente formado por famílias circenses.
“No começo existia muita desconfiança. Algumas pessoas imaginavam que o circo iria se transformar em uma balada. Com o tempo mostramos que não chegamos para substituir nada, mas para somar ao espetáculo.”
Segundo o DJ, acompanhar a desmontagem e a montagem completa do circo em cada cidade é uma das experiências que melhor representam sua nova fase.
“Quando vemos toda aquela estrutura sendo desmontada, carregada e montada novamente para uma nova estreia, entendemos a grandiosidade do circo. Isso resume muito a minha própria história.”
O futuro do projeto
Mesmo atuando diariamente no Mirage Circus, KASTA continua produzindo músicas autorais e acredita que a experiência adquirida dentro do espetáculo influencia diretamente sua identidade como produtor.
“Ganhei uma experiência artística enorme aqui dentro e isso naturalmente aparece nas minhas produções.”
Para os próximos anos, o objetivo é consolidar definitivamente a presença da música eletrônica no universo circense.
“Quero transformar as cenas eletrônica e circense no Brasil e no mundo. O que antes parecia impossível pode se tornar um novo padrão. A música eletrônica e o circo têm a mesma capacidade de transportar as pessoas para outro universo. É essa conexão que quero mostrar ao público.”
